segunda-feira, 24 de setembro de 2007

ROTINA

Olhou pela janela. Não pôde acreditar que mais um dia chegara, amargo como aquele café de quinta-feira. Olhou-se no espelho do banheiro, ela e ele em estados deploráveis. O espelho por ser agredido por ela em seus momentos de fúria. Ela pela auto-piedade que sempre sentira. Jovem, “discretamente infeliz”: torna-se irreconhecível daquela imagem decadente (olheiras, marcas no rosto) a partir do momento que passa pela guarita. Embarcou no ônibus, cheio dos mesmos rostos, como sempre. A senhora idosa a cumprimentou com um sorriso. Fingiu que não viu por trás dos óculos escuros. Uma boa musica a acompanhara nessas situações rotineiras. Radiohead era a pedida de hoje, afinal era a sua banda preferida, pois nenhuma outra expressava melhor todos os seus sentimentos engasgados, acumulados em seus vinte-e-tres-anos-nao-vividos. Mas gostava de sair nos fins de semana. Gostava de se disfarçar de seus personagens pré inventados e sair por aí.
Após meia hora, chegou ao trabalho. Revisava páginas de livros. Embora tenha trancado o curso de Letras, conseguiu o emprego graça a indicação de um amigo. Adorava trabalhar, pois nada a emocionava e a desafiava – além da vida – mais do que as palavras. Sentia prazer ao analisar as páginas dos mais diferentes clientes e perceber a diversas formas que o ser humano vê o mundo e o expressa. Alguns tão bem, outros de modo tão grotesco e tão pessoal. No horário do almoço, não almoçava. Hoje preferiu ficar escutando o The Bends e tomar um café simples. As colegas a invejavam. Tinha uma beleza estonteante e o corpo padronizado – embora a alma estivesse fora de forma – e viviam a lhe perguntar porquê não era modelo. Ela apenas sorria e tentava, inutilmente, explicar que não se identificava com tal profissão.
Ás cinco horas terminava o expediente. Não se importava muito em voltar para casa, na verdade, não queria, mas precisava arrumar aquela bagunça. Conseguiu uma carona de André, que trabalhava na Gráfica. Não eram muito amigos mas ela se sentia absurdamente bem ao lado dele. E vice versa. Mas guardavam esses sentimentos em segredo.Chegou em casa. Não estava cansada, trabalhar não a cansava. Debaixo da porta algumas cartas vindas de São Paulo, de amigos felizes, bem sucedidos. Arrumou a casa. Estava com um forte cheiro de cigarro, alguns copos espalhados pelos cômodos. Agora tudo estava arrumado , em seu devido lugar, com cheiro de produtos químicos e pronto pra ser bagunçado e fedido de novo. Nove horas, ligou a TV. Pensou na vida, na ausência de vida. Pensou na ausência de abraços, pois não tinha nada, nenhum cheiro memorável – senão o de seu apartamento – nem alguém para ligar num dia frio e lhe fazer companhia. Chorou. Tomou mais uma dose. Chorou novamente. Iludiu-se. Dormiu.

3 comentários:

Unknown disse...

Nossa, Mari, você escreve bem pra caramba, fia =o

Eu gostei muito do seu texto. Eu quero muito ler o resto *-*

Parece vc mas misturado com ficção [=

Te amo

Tiago Duarte Dias disse...

parece drummod no sec. xxi =)

Lawrence disse...

Ae MariMelo vc manda muuuuuuuuito!
jah te falei neh jah tem um fã! :)

E sobre aquilo q vc falow sobre ter q melhorar muito ainda...
Não é bem assim, vc vai melhorar muito ainda pq essa é a tendencia!

Abraço!!!