quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Lembrança de um sábado a noite.

“Cause all you see is where else you could beWhen you're at home and out on the streetAre so many possibilities to not be alone.”

Conheciam-se há muito tempo, mas nunca foram amigos, embora a família de ambos fosse próxima (é isso que dá morar em cidade pequena: todos se conhecem e/ou sabem mais da sua vida do que você mesmo). Mas nunca foram de conversar. Passaram no Vestibular – ela em Arquitetura; ele, Ciências Biológicas, e foram morar juntos na cidade, por um consenso das famílias, dando adeus a vida interiorana. Dividiam um apartamento minúsculo, um carro barato,os afazeres domésticos, as contas a pagar e alguns gostos em comum, nada muito expressivo.
No quarto período, a convivência atingira um estágio agradável. Estavam bem mais maduros e ela, apesar da timidez, demonstrara-se muito mais interessante do que nos primeiros dias de dona-de-casa e universitária. Escondia dentro de si uma paixão cristalizada, platônica. Ele a conquistou rapidamente. Nunca teve ninguém, e não gostava da cidade. Nem um pouco. As pessoas, os hábitos, tudo. Tudo. Já ele, adorava as noites intermináveis depois da aula de sexta, as garotas da cidade – mais bonitas e disponíveis. Era como se a vida desabrochasse para ele. E isso a consumia silenciosamente.
Como não gostava de sair para beber ou dançar ou qualquer outra coisa, ficava em casa, estudando Estática e Fotografia, disfarçando seus olhares para ele, que se arrumava empolgado para aproveitar a noite. Não tão empolgado assim: a postura dela o incomodava, numa mistura de preocupação com piedade. Gostaria de ficar lá para lhe fazer companhia, mas também não queria perder nenhuma oportunidade de desfrutar da cidade.
- Vamos comigo hoje. Por favor, você vai se divertir. Pára de estudar um pouco. Vamos dançar, ouvir musica ao vivo, beber. Quem sabe você conhece alguém...
- Não, obrigada, cara. Eu não gosto daqui, das pessoas daqui, enfim...melhor ficar aqui estudando. Me deixa aqui, se não vou estragar essa noite, e eu não quero.
(Fique aqui comigo. A gente escuta Joy Division, pede uma pizza e enche a cara aqui mesmo. Tem wisky no armário, e cervejas na geladeira. Apenas fique.)
- Ah, entendo. Mas você não pode ficar confinada nesse cubículo pra sempre. Qualquer dia marcamos de ir para onde você quiser, só nós dois. Eu to te devendo isso...
- Tudo bem, a gente marca.
(E que seja em breve. Você não me deve nada, senão a sua companhia)
- Eu me preocupo muito com você, garota.
- Obrigada, mas não precisa...estou bem!
(não precisa se preocupe comigo, meu amor.)
- Eu tô indo. Tchau! Tem certeza que não quer ir?
- Tenho sim...tome cuidado com a nossa lata velha e divirta-se!
( Aproveite a noite e conjugue o verbo que eu nunca soube conjugar: viver.)

Ele se despediu com um aceno distante, já que ela estava sentada em frente à televisão, rodeada por livros.
Enquanto ele não chegava, ela não conseguia dormir..tomou algumas taças de vinho, fingiu estudar, zapeou os canais da tv por assinatura – todos tão vazios, tomou banho, realmente estudou e deu uma cochilada em meio aos livros.
Pela manhã, apenas ouviu o barulho da porta abrindo, mas continuou seu cochilo – agora já sono. Ele, ao visualizar a cena de sua amiga – mãe, irmã, empregada, enfermeira, tudo, menos o amor de sua vida, não hesitou em beija-la no rosto, como forma de agradecimento e de aviso – do tipo “já cheguei.”.
Ela acordou rapidamente e sorriu e, em seguida, retornou ao sono.

2 comentários:

Tiago Duarte Dias disse...

muito bom, acho que todos temos algum tipo de amor não correspondido sem que a pessoal saiba o quanto a amamos, enfim...

Lawrence disse...

puts marilia vc eh tipo uma menina prodigio da literatura atual
hehehehe
o famoso amor platonico...
quem não ja passou por isso?!