Queria eu ter dentes, assim fartos, assim brancos, assim fortes. Cheguei a ter-los brevemente - quando bebê, mas a falta do leite de minha falecida mãe os apodreceu rapidinho. Cresci e com o tempo fui perdendo um por um dos chamados “dentes fixos”, esses que supostamente eram pra ficar na boca até a gente envelhecer, ficar idoso mesmo. Com doze anos briguei na escola e perdi os dois inclusivos laterais. Mas aquele piá também ficou com o braço quebrado (embora uma tipóia resolva esse problema. Ah, foi muito bom bater nele também). Aos dezoito foi a vez do canino esquerdo, que eu quebrei mordendo um osso de porco. No mínimo um acontecimento frustrado.
Já adulto, o vício do cigarro foi me consumindo, e levou boa parte dos meus dentes junto com os meus centavos trocados pra comprar a marca mais barata desses mata-ratos que eu sinto tanta falta.
Com trinta e sete anos, os dentes (se é que merecem ser chamados assim) que me restaram fedem e são mal distribuídos dentro de minha boca.Feios, quase pretos, não sei nem ao certo a cor deles. Além disso, a má aparência tomou conta de mim e transformou-me num alguém que nunca fui: mal educado, ranzinzo, calado. A falta de dentes me tirou a juventude que ainda persistia em mim e o gosto pela vida, afinal, mal posso conversar.
Em um dia banal – como todos estavam sendo ultimamente, deparei-me com a oportunidade de fazer um implante, que ainda não havia feito pela falta de recursos, dinheiro (nem em concurso público eu passava. A exigência do candidato ter pelo menos oito dentes na boca soava-me tão irônica...).Tal acontecimento lembrou-me minha infância, quando assisti Charlie and the Chocolate Factory: o novo implante configurara-se para mim como o bilhetinho dourado para aquele menino.
No grande dia da cirurgia, mal consegui dormir, ansioso para receber a nova arcada dentária. Ainda não estava conseguindo acreditar que fui sorteado no meio de tantos cupons. Deve haver alguma explicação divina para isso. Procurei não demonstrar nervosismo diante do Doutor, que se mostrava tão feliz quanto eu que,naquele momento, só tentava imaginar quantas pessoas já passaram por aquele consultório e quantas ainda gostariam passar. Senti-me privilegiado, aquele foi O Meu Dia. Assim que me recuperei da anestesia, meio zonzo, corri direto para o espelho mais próximo. Metaforicamente, a vida voltara a sorrir pra mim, e eu pude corresponder àquele sorriso, sem medo. Eu estava bonito.Talvez soe fútil, mas só quem já perdeu setenta por cento dos dentes sabe como é. Minhas esperanças voltaram e agora desejo apenas voltar a viver, afinal, nunca é tarde. Já definhei por muito tempo.
Que agora eu possa saciar da vida sem receio algum. E que meu sorriso atraia muitos outros sorrisos.
Já adulto, o vício do cigarro foi me consumindo, e levou boa parte dos meus dentes junto com os meus centavos trocados pra comprar a marca mais barata desses mata-ratos que eu sinto tanta falta.
Com trinta e sete anos, os dentes (se é que merecem ser chamados assim) que me restaram fedem e são mal distribuídos dentro de minha boca.Feios, quase pretos, não sei nem ao certo a cor deles. Além disso, a má aparência tomou conta de mim e transformou-me num alguém que nunca fui: mal educado, ranzinzo, calado. A falta de dentes me tirou a juventude que ainda persistia em mim e o gosto pela vida, afinal, mal posso conversar.
Em um dia banal – como todos estavam sendo ultimamente, deparei-me com a oportunidade de fazer um implante, que ainda não havia feito pela falta de recursos, dinheiro (nem em concurso público eu passava. A exigência do candidato ter pelo menos oito dentes na boca soava-me tão irônica...).Tal acontecimento lembrou-me minha infância, quando assisti Charlie and the Chocolate Factory: o novo implante configurara-se para mim como o bilhetinho dourado para aquele menino.
No grande dia da cirurgia, mal consegui dormir, ansioso para receber a nova arcada dentária. Ainda não estava conseguindo acreditar que fui sorteado no meio de tantos cupons. Deve haver alguma explicação divina para isso. Procurei não demonstrar nervosismo diante do Doutor, que se mostrava tão feliz quanto eu que,naquele momento, só tentava imaginar quantas pessoas já passaram por aquele consultório e quantas ainda gostariam passar. Senti-me privilegiado, aquele foi O Meu Dia. Assim que me recuperei da anestesia, meio zonzo, corri direto para o espelho mais próximo. Metaforicamente, a vida voltara a sorrir pra mim, e eu pude corresponder àquele sorriso, sem medo. Eu estava bonito.Talvez soe fútil, mas só quem já perdeu setenta por cento dos dentes sabe como é. Minhas esperanças voltaram e agora desejo apenas voltar a viver, afinal, nunca é tarde. Já definhei por muito tempo.
Que agora eu possa saciar da vida sem receio algum. E que meu sorriso atraia muitos outros sorrisos.
Um comentário:
puts marilia vc quebra as pernas mesmo!
esse foi um dos q mais gostei.
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