Não, não era domingo e sim uma segunda feira. Soava até proposital, tornando o dia ainda mais atrativo. Vou te dizer, não é verdade. No fundo, ninguém realmente se suportava naquela família, mas manter as aparências é indispensável, até porque ninguém estava preparado para assumir (e admitir) que não gostava dos demais parentes. A não ser do Avô aniversariante, o único capaz de reunir de fato todos eles. O senhor pacato e gentil, que nunca abriu mão de seus cigarros, nem mesmo aos setenta e três. Tinha um jeito peculiar de tragar o fumo que ele mesmo enrolava, dando um aspecto até saudável àquele hábito. Sabia que a relação em sua família era difícil, mas o seu sonho ainda era ver todos em paz.
E era uma família relativamente grande. Consistia em doze pessoas ao todo, sendo três netinhos (um bebê, um menino de cinco anos, uma garota de onze e um casal de gêmeos de sete), um adolescente de dezenove anos (irmão do menino de cinco). Os demais a mesa eram adultos, filhos do Avô aniversariante e seus respectivos maridos e esposas.
O mal estar coletivo teve início em meados da década de oitenta, quando uma das filhas do Avô “teve um caso” com o namorado de sua filha mais velha. O resultado desse relacionamento foi uma gravidez inesperada. Para família foi um choque, afinal ambos eram adolescentes. A partir daí desencadeou-se o dramalhão: a jovem não quis abortar o bebê, e os pais garantiram que dariam o apoio necessário à mais nova mãe da família – a essa hora o pai do bebê já estava bem longe. Porém, sua irmã mais velha empossou-se de ódio e ciúme. Naquele estado, ela resolveu envenenar a irmã gestante diariamente durante as refeições, para que ela perdesse a criança e a própria vida. Em algumas semanas, a filha mais nova da família morreu diante de todos durante um dos almoços organizados pelo Avô. A perplexidade se sentou à mesa naquele instante. Um momento traumático que todos fingem apagar da memória, até mesmo os pais da garota.
A grande questão é que de certo modo os outros irmãos contribuíram direta e indiretamente para aquela morte, mas continuam cada um na sua. O assunto jamais deve ser discutido e o silêncio toma conta da copa assim que cada um se recorda daquela cena. Algumas tentativas de puxar assunto tornam-se frustradas: as conversas estavam tão sem gosto quanto a própria comida feita pela Avó hipertensa, que evitava pôr sal nos pratos que preparava. Todos fingiam tão bem estar gostando daquele momento, até mesmo a inocência das crianças dobrava diante dos tios e primos. Sorrisos obrigatórios e a boa educação sempre ensinada dentro da família estavam sendo colocados em prova naquele momento. E mais uma vez deu certo.
Na despedida, as mesmas promessas de “Vou te ligar pra você ir lá em casa” continuava rodeando o grupo de irmãos. E assim todos voltaram para suas próprias vidas, com um ar de alívio por aquele almoço ter acabado. Ainda bem que é só uma vez no ano.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
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Um comentário:
bom, muito bom. tipo um clarica com machado de assis =)
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