segunda-feira, 12 de maio de 2008

UMA BIOGRAFIA (IR)RELEVANTE.

Guitarras, baixo e bateria. Era só mais uma noite e ela iria embora assim que o próximo ônibus partisse, só não sabia para onde. Depois que o último acorde fosse tocado ou o último suspiro do vocalista se propagasse, ela pensaria nisso. Desde cedo suas escolhas foram imediatas. Morar com a mãe ou com o pai, tocar piano ou praticar esportes, cores ou preto e branco, ter uma vida denominada ‘estável’ ou viver à sua maneira. Talvez essa última tenha sido a mais sensata, embora contradissesse tudo o que vinha aprendendo dentro de sua família nada estruturada, mas cheia de falso moralismo, que tentava em vão se basear em fundamentos mais que falidos.
Tudo (ou quase tudo) que ela observava e absorvia involuntariamente, representava que ela não queria, como um tipo de produto inútil e descartável. A idéia de “não ser livre” não cabia dentro de sua jovem, porém brilhante mente. Poucos a compreendiam e ela não se importava, pois sempre dizia que não é fácil nem entender a si próprio, quem dirá aos outros humanos! Só sabia de uma coisa: não nasceu para ser cópia, cobaia ou animal de estimação.
Exalava liberdade e considerava o desapego a maior das virtudes. Assim ela se desligava de tudo, desde os parentes até à Deus. Para ela, Deus era a maior representação de fraqueza, apego exagerado e prisão. Deixava-O para as outras pessoas. Sua única religião era a vida e tudo que ela pudesse proporcionar, sendo dor ou felicidade. Nunca precisou de dinheiro em grandes quantidades. Quando criança tinha o hábito de guardar os trocados dentro de um cofrinho quebrável e assim, com economias oriundas de trabalhos ruins, foi mais longe do que se imagina. Na escola, conheceu sua maior paixão: a Literatura. Através das histórias que lia, tentava imaginar o que queria que escrevessem sobre ela, pois pressentia que sua vida teria curto prazo de validade.
Por não ter herança e principalmente por considerar desnecessário, não queria ter filhos. Definitivamente não nasceu com instinto materno e abominava a idéia de carregar uma criança em seu ventre.
Quanto ao amor, achava graça. Tal sentimento a fazia rir demais, dos outros, é claro. O amor é uma piada, torna as pessoas cegas, alienadas e ainda consegue ser uma “desculpa esfarrapada para sentir dor”. Mas ela não o enxergava, enxergava sim outros sentimentos que as pessoas erroneamente confundiam com o amor, como a conveniência, a carência, os desejos e o terrível medo da solidão. Na verdade, nem ela sabia o que era o amor de fato, e nem queria saber.
Adepta ao hedonismo, valorizava os prazeres carnais, mundanos, desprezíveis talvez. Danem-se os sentimentos. Dormiria com quem quisesse, estaria com quem estivesse e sairia imune de qualquer relacionamento. A única coisa que valeria de verdade nessa vida eram os seres não-humanos. Acreditava que o coração sempre se regenerava, portanto partiria todos que ousassem a se apaixonar por ela. Enxergava todo esse sadismo (?) com naturalidade, já que não estaria amanhã, iria para uma cidade vizinha, talvez andando mesmo. As doses-de-qualquer-coisa seriam cada vez mais elevadas.
Com o tempo, seu organismo foi acostumando, não sentia dor ou fome, mas a sede, essa nunca cessava. Em cada canto, deixava seu rastro, uma garrafa, um copo, uma taça. E assim foi vivendo, na sarjeta, sem carro do ano, família feliz, banda famosa, amigos fiéis (tirando o álcool), profissão dos sonhos e com um baixíssimo poder de compra. Tempos depois ela morreu, não se alimentava bem há muito. Ao lado de seu corpo foi encontrado um guardanapo de papel em que registrou: “Fui feliz!".

2 comentários:

Tiago Duarte Dias disse...

se álvares de azevedo se fundisse com clarice lispector e tal ser vivesse no nosso tempo, ele escreveria um texto assim :D

Lawrence disse...

A felicidade é só um sentimento, sentimento que se tem quando se esta abstraído da realidade crua e insípida. Viver feliz é viver distraído o Maximo que puder. Muitos consideram isso uma proeza. Eu vejo só como uma das muitas alternativas. A que diz nenhuma das alternativas acima, me parece tentadora.