domingo, 15 de junho de 2008

Insone

Dez e meia da noite. Após o banho, agradece, pois está indo dormir finalmente. Finalmente? Dessa vez não foi tão fácil. Nos primeiros minutos se enrolou no cobertor, procurou uma posição mais confortável para o sono e assim que encontrou ficou lá, imaginando impossibilidades, sonhando acordado e acreditando nas próprias mentiras que se desencadeavam. Isso o preencheu de agonia e percebeu que dormir é realmente uma arte, como os preguiçosos costumam dizer para justificar seu eterno desânimo. Chegou à conclusão de que não adormeceria aquela noite, estava inquieto demais para consegui-lo.
“Pior que terei de acordar cedo amanhã”. Assim como a maioria dos trabalhadores, já que era uma terça feira, meio do ano, sem nenhum feriado em vista. “É, praticamente todos acordarão cedo amanhã.”, sintetizou.
Por curiosidade, foi verificar se era o único insone da casa. Tentou passar despercebido pelo quarto de seus pais e sua mãe, com sono leve, o viu, mas procurou fingir que continuava a dormir. O pai só acordava de madrugada para tomar os remédios de hipertensão. Fechou a porta delicadamente e foi fuçar o quarto dos irmãos. Até acendeu a luz e naquele momento, sentiu uma inveja tão grande, pois tanto o mais novo quanto a irmã do meio estavam num repouso profundo, um deles até roncava.
Voltou para seu quarto. Deitou-se novamente para dormir e não obteve sucesso. Um livro talvez ajudasse, mas estavam todos guardados em algum lugar que esquecera. Preguiça demais para procurá-los. Ouviu um pouco de música. Ao menos era intenção, mas quando percebeu, já tinha escutado o mesmo CD várias vezes. Estava num momento estranho, nem acordado, nem dormindo. O relógio marcava 3 horas da manhã. Entre um cigarro e outro, brincava com as luzes do quarto, criando um clima agradável, mas ineficaz para fazê-lo dormir de uma vez por todas.
Desistiu, não ia conseguir dormir mais. Tomou banho, atacou a geladeira, ligou para algumas pessoas, mas obviamente ninguém o atendeu. Não era o momento mais apropriado para fazer uma ligação e jogar conversa fora.
Resolveu dar uma volta de bicicleta, um hobby que há muito tempo não praticava. Pelas ruas na madrugada fria e estrelada, deu de cara com o mundo omitido. Pessoas catavam lixo para comer, crianças dividiam em mil pedaços o mesmo cobertor e algumas eram violentadas. Do outro lado da rua, os primeiros ônibus desembarcavam lotados, com trabalhadores que acordavam muito mais cedo que ele, se é que dormiam. Eles compartilhavam a mesma calçada, o mesmo mundo por alguns instantes. Observou de longe a degradação humana e só. A beleza da aurora já se mostrava e, transtornado e impotente, retornou para casa, arrumou-se e foi trabalhar.

2 comentários:

Lawrence disse...

Eu queria não ter motivos pra querer dormir. Eu queria viver cada hora , cada minuto, cada segundo do dia com o mesmo entusiasmo. Mas a vida me cansa e eu acabo cansando da vida. Um dia o meu próprio corpo já não ira aguentar mais, vai ser o sono eterno.

Tiago Duarte Dias disse...

o que as pessoas escondem fica na obscuridade da noite, tal qual a sujeira debaixo de um tapete. é só levantar o tapete que é possível vê-la