“‘Eu te amo’, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la.”
(Clarice Lispector)
“Por favor, vá embora, me deixa, mas não me esquece, que eu vou passear pelas cortinas, pela poeira, apagar.”
(Lobão)
Estavam os dois deitados no sofá da pequena sala, até que ela, após estudá-lo por um tempo, levantou e exclamou com raiva:
-Seu filho da puta! Você me usou esse tempo todo!
-Hã? Do que você ta falando?
-Cínico!Você ainda pergunta? Você me usou e nesse tempo todo eu me deixei levar...
-Ah, já entendi. Você também me usou, sabia? Estamos quites, meu bem.
-Não, mas é injusto!Você ta aí, intacto, mais vivo do que nunca e eu to aqui desintegrando. Em algum momento de loucura eu pensei que tudo isso aqui era real, mas nada passou de enganação, de auto-enganação. Você é escroto, ridículo, otário! (pensou em agredi-lo, mas viu que era inútil)
-(também levantou do sofá) Ok, eu admito, EU TE USEI, USEI MESMO!Eu tava sozinho nesse mundo, cara. Daí você apareceu e foi fácil: eu fiz você se apaixonar por mim. Isso foi mais fácil do que eu pensei que seria. Por um momento achei que tava me apaixonando por você, mas não passou de dó.
Há tanta vida por aí, meu amor. Não vou ficar agarrado a uma maluca, doente e solitária como você. Estamos definitivamente quites. Nos usamos pra suprir o que não tínhamos e que mal há nisso?Hein? Me fala! Se bem que acho que não preciso mais de você, eu tenho meus amigos, você sabe o que é isso?
-Amigos?Hahaha!Seus “amigos” são tão idiotas quanto você! Um bando de entediados que enchem a cara com o dinheiro dos pais e se acham super independentes por isso!Depois de tanta diversão, como você costuma jogar na minha cara, eles te jogam na entrada do prédio e sou EU que te faço humano novamente.
EU, a maluca e solitária aqui! (fecha os olhos e simula um enforcamento). Eu limpo o teu vômito, aturo seu papo de bêbado e suas ressacas insuportáveis, gasto a maior grana com remédios e você, nesse tom de prepotência, vem dizer que TEM AMIGOS E NÃO PRECISA DE MIM?
Pelo menos eu preciso de você e assumo (chorando). Porque nada nessa merda faz sentido sem você. Se tudo é ruim por natureza, sem você fica um verdadeiro inferno!É eu te amo, por mais que isso represente um punhal fincado em minhas costas. Se eu te usei, é porque você é TUDO que eu tenho.
-Mas pode ir se acostumando porque você não vai ter mais a quem usar!Tira esse punhal das suas costas, mas tira de uma vez pra não doer muito!To indo embora daqui e espero que seja pra sempre. E você vai ser livre, não é maravilhoso? O escroto, o filho da puta ta indo embora e ta levando com ele o punhal e o cheiro de álcool. Aproveita a neutralidade da solidão agora! Espero ficar em paz e ah, eu não te amo!Eu nunca te amei, eu MENTI! (joga o pouco que tinha dentro de uma mochila e vai embora)
- Desaparece! (grita chorando e desesperada enquanto a porta batia. Suspira e fala baixinho: “preferia quando você mentia...”).
Semanas depois:
When you told me you didn't need me anymore, you know, I nearly broke down and cried…
Foi tudo que ela cantarolou durante dias. Os Beatles e a paixão pelo blues eram suas únicas companhias para aquele momento tão piedoso. Não poupava excessos... E tentava substituir aquela falta com prazeres momentâneos. Comer, beber, drogar-se: esses foram os verbos conjugados por ele e por ela pra tapar os buracos mais que visíveis. Até quando suportar aquela situação repleta de orgulho? Voltar àquela vida de tamanha dependência não era a saída, não havia felicidade. Não há felicidade, ela é mais uma das tolas invenções humanas. Mas era a única solução, um era parasita do outro. Dois coitados que talvez nasceram simplesmente com essa função , a de figurar uma vida. A vida um do outro. É preciso olhar para dentro e encarar as verdades, de vez em quando. Faz mal, mas só por um tempo. Depois vamos nos acostumando e nos adaptamos. Os mais fortes se adaptam. Os ditos fracos continuam tentando, como era o caso daquelas duas criaturas.
Mas o amava com pureza, como uma mãe um filho. Sempre foi sincera e o cuidava, pois precisava dele, e admitia. Doía, mas ela admitia, pois precisava deixar isso claro. Ele achava que não a amava, mas depois dessa distancia inesperada, percebeu que sem ela sua insignificância multiplicara-se por mil.
Tomou coragem, arrumou os trapos e foi para o apartamento. Bateu na porta algumas vezes. Ela demorou um pouco para abrir a porta, não esperava por ninguém. Nem por ele, porque fazia tanto tempo e a esperança já havia se esgotado. Quando abriu, ambos se chocaram com a aparência decadente adquirida. Sem graça, ele sorriu para dizer que estava de volta, para ficar.
Um longo e verdadeiro abraço simbolizou a necessidade mútua e aos poucos foi cicatrizando as feridas abertas.
Fim de cena.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
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3 comentários:
Ficou PHODA! Bem envolvente e interessante do começo ao fim. Embora não tenha gostado muito do desfecho, mas geralmente eu nunca gosto dos finais das histórias.
adorei minha cara, me identifiquei com ela. =D
Gostei muito do que li até o fim do conflito entre dois seres decadentes que negam o amor até a última instância por puro capricho e filha-da-putice aguda. Depois disso ele perdeu o gás, mas muito legal... Textos inflamados assim são envonventes, nos fazem ler avidamente... tente, na próxima, se houver (eu eu espero que haja), deixar espaço para que um segundo ato seja 'playado'.
Clap, clap, clap!
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